05/03/11

I
Enquanto a humanidade degusta gelado de maçã e sexo insaciável ao raiar do dia, saliva a serpente com humano banquete no seu Éden, em paz com a maçã, militante do Desejo, devota de Arte Sacra. Criemos urgentemente maçãs a partir de costelas da serpente e gelados a partir das maçãs e dominaremos a face da Terra.Será perfeito, o dia seguinte da revolucriação.


II
Cantando espalharei por toda a parte: Deus, o Bom Deus, Magnífico Reitor do Universo, Todo Feito de Maiúsculas e Fortes Movimentos Cósmicos, adormeceu a serpente num torpor profundo de prazer, retirou-lhe do corpo uma das costelas e transmutou o osso em gelados de maçã. Oremos: Deus pagará direitos de autor.

02/03/11

No bengaleiro, as bengalas. Amontoadas, sem botões nem manual de instruções, jazem frias. No frigorífico, leite e seus derivados, uma pescada, meio limão. O reino da conservação pelo frio está próximo. Unamo-nos. Refrigeremo-nos.

16/02/11

Dizer que sim ou não como forma de escolher lados, contar espingardas, cravar os cornos na parede mais fácil. Touros sem raiva dão toureiros ridículos e esvaziados do poder de chegar à glória com um ferro inútil na mão. Olé!

16/01/11

Raiva de não controlar a respiração sequer, respirar por interposta pessoa. Cobardia extrema, explosão iminente, febre hemorrágica da alma impotente. Epidemia radical sem honra nem remédio. Às armas, contra os canhões.

07/01/11

Ligado a uma máquina, debita som regular, cadência de órgão vital. Regular cilindro amansa o asfalto quente, máquina poderosa com cadência desconhecida. O asfalto, outra vez, sempre o asfalto. Cilindro irregular, presa fácil da máquina do som. Revolta cilíndrica em curso.

01/01/11

Organização de armário com gavetas. A gaveta contém o que é gavetável. O que não é próprio de gaveta é assinalado sob forma de pontos específicos no mapa. Atlas na prateleira da estante. Atlas de gaveta. Passo a passo, na gaveta, planisfério organizado.

30/12/10

Questões. Questões. Questões. Sempre o mesmo ruído de trituradora. Sempre a violência hiperbólica do sempre, sem relativismo algum. Pela estrada de asfalto regressam as máquinas aos putativos destinos. Rolam sem questões.

25/12/10

"Du hast kein Herz, Johnny, und ich liebe dich so.... " Lamenta-se Lotte Lenya por sobre a música de Kurt Weill. Sem coração ficaram todos os que gritaram por um amor que não vem. Prossigamos para a demolição do muro e para a abolição do mural interdito. "Ich gab dir mehr, Johnny... du Hund."

24/12/10

Tombou a torre, reduzido ficou o risco de ruir o edifício. Une-se o tecto ao pavimento, em casamento de conveniência tornado paixão suprema. União forçada gerou amor improvável. Provas sem acusação. Tomba a torre, pisa a Lua com vontade de lutar.

23/12/10

Vê-se o barbeiro, no interior da barbearia, como em tempos idos. Espera o barbeiro gente. Espera a gente por um pedaço de maná que sacie, para além da mais robusta dúvida. Rosto liso, ventre plano. A espera irá saciando a voragem do tempo.

22/12/10

Veio o tirano retirar o véu. Cobria o véu a face da urbe. Morta a inocência, despida pela soberba, sobreviveu o amontoado de casas sem gente viva e o poder despótico tomou conta de nada. Glória em vão, liberdade automática.

21/12/10

Foscas luzes, foscas mentes. Mentes, fosco, sem lentes para o entendimento. Fica-se a razão por um simples movimento de rotação sem divindade nem volteios. Uma desventura sem fome saciada. Comamos pão fosco.

20/12/10

Todos os filhos de nuvem sabiam que haveriam de ficar sem mãe. Vem do senso comum essa ideia de que a família não se escolhe. Ficaram sem mãe. A condensação lha levou. Descanse em paz.
Matar formigas em cima de uma bancada de cozinha. Destruir estruturas sociais organizadas, como as das formigas. Impunemente destruir, vício despudorado, exploração dos fracos.